A rua e os espaços abertos

Publicado por Oigalê em 28/08/2009 na categoria Movimentos

txt: Amir Haddad

Há diferença entre rua e espaço aberto, embora evidentemente a rua seja um espaço aberto.

O teatro é  uma arte pública; não nasceu necessariamente na rua, mas é uma arte de espaços abertos.  Levar o Teatro para as ruas  significa devolvê-lo a seu lugar de origem recuperando sua natureza de atividade pública  que se realiza nos espaços abertos das cidades.  Centro  e Periferia. Recupera o conceito mesmo de espaços públicos para o encontro da população. Assim a idéia de espaço publico fica muito maior  do  que a idéia de rua, conforme a  concebemos hoje nas cidades modernas.

Quando vamos às ruas  para fazer algum trabalho, por menor que ele  seja, sabemos muito bem que estamos retrocedendo na historia para avançarmos em direção a um novo tempo e a uma maneira muito nova, embora evidentemente muito antiga, de ocupação  dos espaços públicos urbanos e de diálogo com seus cidadãos, sem nenhuma espécie de discriminação, a começar pelo custo do ingresso, absolutamente inexistente dada a natureza publica do evento. Pensamos uma outra cidade e portanto um outro futuro. Mas encontramos grandes dificuldades para implantação destas pequenas Utopias. As políticas publicas oficiais  são extremamente privatizadoras e excludentes, e as praças e ruas  cada vez mais perdem  suas características de lugares públicos  para o convívio urbano indiscriminado  e se transformam em espaços  fechados onde o cidadão  não encontra abrigo.

Desde sempre as manifestações de vida têm sido confundidas com desordem.  O que mobiliza imediatamente uma reação contraria,  a favor da ordem.  Nesta “reação” as cidades  e suas  ruas vão sendo limpas e saneadas e neste “arrastão” da ordem vai de entulhada  tudo o que as ruas ou as cidades poderiam estar produzindo de novo ou surpreendente. 

Sonho com uma  cidade luminosa onde a criatividade humana possa se manifestar livremente sem estar submetida aos controles ideológicos, artísticos,  morais e administrativos a que hoje estas manifestações estão sujeitas. Santa Catarina tirou os malabaristas dos sinais luminosos, o Ademir Leão, que toca Sax nas ruas do Rio  foi proibido de tocar,  voltou por exigência  popular.  Por força de meu oficio foi  grande meu contato  com o “povo de rua” , de toda espécie. Como diria Galileu  Galilei,  não foi pouco o que eu aprendi com esta gente.  Porém, pelo andar da carruagem  não será esta a cidade que iremos desenvolver, e sim outra “perfeitamente” asseada  e saneada onde qualquer homem  branco dominante possa andar sem perigo de ser ameaçado. Conseguiremos esta “perfeição” étnica, política,  racial, como queria Hitler?     

Se tivéssemos  tantos artistas nas ruas  como temos desempregados, marginais e policia  nossa cidade seria melhor. Ou será que achamos que vivemos no  melhor dos mundos e que basta limpá-lo  para mantê-lo em “ordem”?


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